Entre a corrida pelo petróleo venezuelano e as promessas de descarbonização: a contradição que ameaça o clima global

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No início de 2026, a crise geopolítica entre os Estados Unidos e a Venezuela entrou em uma nova e perturbadora fase. De acordo com o The Guardian, o governo americano anunciou que exercerá “controle indefinido” sobre as vendas de petróleo venezuelano, inclusive com planos de vender até 50 milhões de barris de crude ao mercado internacional sob gestão norte-americana, após sua intervenção na capital Caracas e detenção do presidente Nicolás Maduro.

Para qualquer observador sensato da transição energética global, essa movimentação não é apenas um episódio de política externa: é uma contradição flagrante entre a retórica global de redução de combustíveis fósseis e a prática de reforçar o acesso a reservas petrolíferas que deveriam estar no centro da agenda de descarbonização.

A Venezuela: o “El Dorado” do petróleo em um mundo que deveria estar abandonando fósseis

O The New York Times aponta que a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta: cerca de 300 bilhões de barris, cerca de 17% de todas as reservas globais conhecidas. Esse enorme volume de recursos fez, historicamente, com que Caracas fosse um ator relevante no mercado energético mundial, ainda que sua produção real tenha despencado nos últimos anos devido à crise econômica, infraestrutura deteriorada e sanções internacionais.

Não por acaso, líderes como o colombiano Gustavo Petro nomearam explicitamente o petróleo venezuelano como o “ponto crucial” por trás da pressão americana sobre Caracas, indicando que a crise política tem mais a ver com recursos estratégicos do que com democracia ou combate ao narcotráfico, diz a revista ISTOÉ Independente.

A contradição da política energética americana

Ao mesmo tempo em que governos de todo o mundo participam de fóruns climáticos enfatizando a necessidade de redução de emissões e transição energética, a estratégia recente dos EUA anda na contramão, retirando-se do tratado climático da ONU, marcando o maior afastamento da cooperação global na sua história moderna. Não obstante, tal política aumenta o fluxo de petróleo pesado no mercado global e reforça a presença de companhias petrolíferas americanas na Venezuela.

Esse fluxo não é neutro. O petróleo venezuelano é conhecido por ser pesado e de alta intensidade de carbono, exigindo mais energia e mais emissões para ser extraído e refinado, o que o coloca entre alguns dos crudes mais “sujos” em termos de impacto climático.

Essa é uma contradição fundamental: no papel, o mundo trai a urgência da descarbonização, enquanto na prática, o estabelecimento de novas frentes de extração e controle de petróleo continua sendo tratado como um “ativo estratégico” vital.

Consequências reais para a crise climática

Não se trata de abstrações: a ciência climática é clara quanto à necessidade de manter a maior parte das reservas fósseis conhecidas no subsolo se quisermos limitar o aquecimento global abaixo de 1,5 °C — compromisso que praticamente todos os países assumiram em normas internacionais de clima. Essa equação física foi reforçada por muitos dos principais relatórios científicos nas últimas décadas.

O incentivo à integração de reservas venezuelanas ao mercado global — seja via empresas americanas reconstruindo a infraestrutura petrolífera, seja via revenda direta dos estoques sequestrados —estava ferindo essa lógica básica de mitigação climática. Ele insere novo capital, novas expectativas de retorno financeiro e novas pressões por produção que empurram contra qualquer curva de descarbonização efetiva.

Por que isso importa para a sustentabilidade, além da geopolítica

Há três dimensões importantes de impacto:

1. Climatológica: cada barril adicional produzido e queimado contribui para a aceleração do aquecimento global, com efeitos que se estendem além da Venezuela ou dos EUA.

2. Política: reforçar a lógica de “combustível fóssil como moeda de poder” reativa modelos imperialistas de extração, empobrecimento periférico e dominação econômico-militar — modelos que a agenda de sustentabilidade combate há décadas.

3. Estrutural: ao focar em petróleo em vez de transição energética real, os EUA (e aliados) enviam um sinal à indústria global de que “recursos fósseis ainda contam”, atrasando a substituição por soluções renováveis e limpas.

Uma agenda alternativa — urgente, real, possível

Se o debate fosse estritamente energético, os sinais já seriam suficientemente claros. Em diversos setores, a demanda por petróleo apresenta estagnação — ou mesmo declínio — enquanto fontes renováveis avançam de forma consistente em competitividade, escala e viabilidade econômica. No entanto, a insistência em ampliar o controle sobre reservas fósseis revela que a questão central não é energia, mas poder. Ao priorizar o acesso ao petróleo em um contexto de emergência climática, grandes potências reforçam uma lógica geopolítica ancorada no passado, que ignora limites físicos do planeta e adia, deliberadamente, as transformações estruturais que a transição energética exige.

Uma verdadeira política de sustentabilidade começaria por:

  • Rejeitar práticas de controle de reservas como simples “ativos econômicos”.
  • Investir em transição energética com metas claras, vinculadas a cortes de produção de combustíveis fósseis.
  • Promover cooperação energética que não dependa da lógica de expropriação ou dominação.
  • Integrar justiça climática às negociações internacionais, garantindo que populações vulneráveis não paguem sempre a conta maior.

Sem futuro ambiental, não há futuro econômico

Priorizar crescimento econômico ignorando os limites climáticos pode sustentar resultados no curto prazo, mas fragiliza as bases que sustentam a própria vida. Para a Fauna Projetos, a questão é simples e inegociável: de nada adianta uma economia forte em um planeta instável, onde eventos extremos e crises ambientais passam a ameaçar diretamente as pessoas. Sustentabilidade não é um adendo ao desenvolvimento, e sim a condição mínima para que ele exista.

A pergunta que fica é simples e urgente:

Podemos realmente falar em descarbonização enquanto guerras por petróleo ainda definem a ordem internacional?

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